terça-feira, 1 de julho de 2008

Reverência em pleno shopping

Muito se falou (e bem , por sinal) no aniversário de 50 anos da conquista da primeira Copa do Mundo pela seleção brasileira, na Suécia. Eu assisti aos vários documentários das TVs esportivas e ao filme 1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil, de José Carlos Asberg. Quanto ao último, não dá para entender o motivo de o Pelé não ser um dos entrevistados. Agenda? Desencontro?

Pouco se falará de futebol aqui neste blog. Talvez, esta seja a única vez. Abro uma exceção para falar de um personagem da conquista em 58: Didi.

Valdir Pereira era considerado um jogador lento para a época (segundo relatos dos tais documentários). Tinha a fama de praticamente não sujar a camisa, o que ia ao encontro com a forma elegante de bailarino espanhol. Os críticos juravam que às vezes dormia em campo.

Inventou um chute, geralmente usado em cobranças de falta, que o "comentarista da palavra fácil", Luís Mendes (meu vizinho aqui do bairro do Flamengo), batizou de Folha Seca, por não se saber nunca onde cairia. Fez o primeiro gol do maior templo do futebol brasileiro, o Maracanã.

Se assistir aos documentários ou às cenas da época, preste atenção no Didi. Não pelo badalado e curioso fato de botar a bola embaixo do braço e ir lentamente ao círculo central após o gol sueco na decisão. Mas pelos passes açucarados que dava ao atacantes. Contra o País de Gales, deu um toque de cabeça para Pelé. Contra a França, além do golaço vindo de um chute certeiro de fora da área, esperou o camisa 10 aparecer livre para dar mais um passe daqueles. E contra a Suécia, após a lenta caminhada histórica, meteu para Garrincha na ponta direita, dando a tônica de como o Brasil viraria aquela partida.

Lembro de estarmos eu e Liliane, no Dia dos Pais, no ano 2000, passeando no Botafogo Praia Shopping. Estávamos vivendo em cidade diferente dos nossos pais e fomos encarar alguma fila de um restaurante. Até que vi Didi, esposa, alguns filhos e netos vindo na nossa direção. Eu cochichei com a Lili (que não sabe nada de futebol, mas tem verdadeira adoração por pessoas de idade), tentando explicar a importância daquele que vinha.

Didi percebeu que eu o tinha reconhecido e pareceu curtir aquela admiração. Eu, que quando vejo pessoas famosas costumo fingir que não conheço por pura vergonha, naquela vez, o cumprimentei como se ele fosse lembrar de mim: "Mestre Didi". Aquele senhor de 81 anos de idade, que mancava de uma das pernas por causa de um problema na coluna, mas mantinha a elegância de antes, sorriu. De uma maneira leve, como um sábio e sem falsa modéstia. E seguiu adiante, orgulhoso, amparado pelos seus. Foi o último Dia dos Pais do craque. E eu o reverenciei naquele dia.

Um comentário:

Daniel disse...

Fala Maluco...
O máximo que eu encontrei no Botafogo "escada" shopping foi uma "prima" conhecida, que estrelou um filme educativo, mas deixa pra lá... Muito longe de ser mestre em alguma coisa... Se bem que, como diziam os Raimundos: "Doutora em P*CA". Realmente, é (BEM) melhor deixar pra lá. Só queria registrar que num momento nostálgico estava assistindo há poucos dias "Two Billion Hearts" ou "Todos os corações do mundo" quando se compara com o filme da copa de 58, parece que o assunto é outro, parece outro esporte. Pensando bem, o esporte até que é o mesmo, a diferença é que o assunto de um é arte, o outro é auto-ajuda, do tipo : "determinação para formar campeões ou líderes empreendedores no mercado globalizado do blablabla...". Se é q vc me entende. Obrigado pelo espaço e desculpe pelo desabafo, mas insônia, sem tv à cabo, às vésperas do jogo do fluzão, ouvindo Toninho Horta - From Ton to Tom deixa a gente espaçoso.
Um abraço e até mais...
Daniel Rabha